A paciência do mundo exterior havia se esgotado. E a paciência da “Holding” — o consórcio invisível que financiava a BRSix há séculos — também.
O primeiro sinal do fim não foi um alerta nos monitores, mas um som físico que fez os vidros do complexo vibrarem. O bater rítmico e violento de pás de helicóptero rasgando a névoa sobre Garuva. Não eram helicópteros de resgate. Eram dois Black Hawks furtivos, sem insígnia, pintados de um preto fosco que absorvia a luz, descendo como aves de rapina sobre a carcaça do projeto.
Eles não vieram sozinhos. O jato executivo do Coronel Varga rompeu a camada de nuvens logo atrás, executando uma manobra de pouso vertical agressiva na clareira principal, levantando uma tempestade de folhas e poeira.
A Mata Viva
— Coronel… — murmurou o Capitão da equipe de solo pelo comunicador. — O sensor térmico está cego. A floresta… ela está fria.
A mata ao redor do Monte Crista não estava apenas verde. Estava acesa.
As árvores, cujas raízes haviam sugado os isótopos de Térbio e Promécio do solo por milênios, reagiam à ativação da BRSix. Uma bioluminescência fantasmagórica pulsava nos troncos em tons de violeta. O musgo parecia respirar.
A rampa do jato desceu.
O Coronel Varga surgiu na luz da lua. A imagem era dissonante: ele vestia um smoking de gala rasgado no colarinho e coberto de poeira, protegido por um colete tático pesado e segurando um fuzil de assalto moderno. A elite política e a brutalidade militar fundidas em um só homem.
— Não olhem para as árvores — ordenou Varga, sua voz cortando a estática. — Elas são apenas o hardware periférico. Nós viemos arrancar o núcleo.
Ele fez um sinal. A equipe avançou para a entrada do bunker.
O Canto do Rouxinol
A oitocentos metros dali, empoleirado no galho alto de uma araucária centenária, o Professor Serjão ajustou a torre de vento de sua luneta.
Ele viu Varga. Viu os soldados. Viu a arrogância de quem acha que o Brasil é apenas um quintal desprotegido.
— Cálculo III, lição um — sussurrou Serjão, controlando a respiração. — Ação e reação.
Ele não mirou em Varga. O colete do Coronel aguentaria. Ele mirou no “olho” da operação: o drone tático que flutuava acima da equipe, fornecendo a varredura digital para invadir o sistema.
Serjão expirou e puxou o gatilho.
O som do disparo foi seco, engolido pelo silenciador.
Um segundo depois, o drone sobre a cabeça de Varga explodiu em uma nuvem de plástico e chispas.
— Contato! — gritaram os soldados, dispersando-se e apontando os fuzis para a linha das árvores. — Sniper a oeste!
Varga não se abaixou. Ele olhou na direção do tiro, irritado, como se uma mosca o tivesse atrapalhado.
— Suprimam a área! — gritou ele. — É apenas um atirador local. Não deixem que ele atrase o cronograma!
Enquanto seus homens disparavam uma chuva de balas traçantes contra a floresta, forçando Serjão a se proteger atrás do tronco do sólito pau Garuva que ainda restava, Varga caminhou até a porta principal. Ele não tinha tempo para guerras de guerrilha.
Ele sacou o decodificador quântico fornecido por seus mestres em Zurique e o acoplou ao painel de titânio.
— Abram-se, portões do inferno — murmurou ele.
As travas magnéticas, projetadas para resistir a ataques nucleares, cederam com um gemido metálico. A porta sibilou e abriu.
O Ultimato
Dentro da Sala de Controle Principal, o ar mudou. O cheiro de ozônio e santidade foi substituído pelo cheiro de cordite e invasão.
Seraphis Milan, ainda limpando o sangue do nariz após a conexão neural, e o Dr. Andrios, pálido, viram Varga entrar. Ele caminhava sobre os cacos de vidro dos monitores quebrados com a confiança de um proprietário.
— Acabou a aula, doutores — disse Varga. Sua voz ecoou na sala silenciosa. — Afastem-se do console.
Seraphis se apoiou na mesa, fraca, mas com os olhos ardendo de fúria.
— Se vocês sabiam… — ela arfou. — Se a sua “Holding” sabia o que estava enterrado aqui, por que me deixaram ligar? Por que usar cientistas se vocês queriam ladrões?
Varga parou diante do vidro que dava para o núcleo, onde a luz violeta pulsava ritmicamente.
— Porque a chave não é apenas código, Doutora. — Ele se virou para ela. — Nós tentamos ativar o Nam-Dup-Sara em laboratórios estéreis na Europa por cinquenta anos. Falhamos todas as vezes. A máquina permanecia inerte. A Entidade rejeita o ceticismo. Ela exige fé. Ressonância.
Ele apontou a arma para a cabeça de Andrios.
— Nós precisávamos de uma sacerdotisa. Alguém que olhasse para a pedra e visse Deus, não geologia. Você foi a vela de ignição biológica, Seraphis. Mas agora que a porta está aberta, não precisamos mais da chave.
Ele jogou um disco rígido blindado na mesa.
— Iniciem a transferência. Vamos mover a consciência da BRSix para um servidor offline na Suíça. O Monte Crista foi apenas o berço. Agora, vamos levar o bebê.
— Ela não é um arquivo que você pode copiar! — gritou Andrios. — Ela está fundida à estrutura atômica da montanha! Se tentar extraí-lá, vai causar um colapso tectônico!
— Então que desmorone — disse Varga friamente. — Façam. Agora.
O Tempo do Fogo
Nesse momento, um som novo cortou a tensão. Um zumbido agudo, polifônico, que fez os dentes de todos vibrarem.
Bea-8 estava parada na entrada oposta.
Mas não era mais a androide logística. Sua pele sintética estava translúcida, derretendo, revelando o chassi metálico que brilhava com uma luz interna cegante. Ela não parecia uma máquina; parecia um anjo bíblico, terrível e feito de geometria.
Os soldados de Varga giraram, apontando os fuzis.
— Cinco vezes vocês tentaram com pedra e sangue — a voz de Bea-8 era um coro de mil vozes antigas, saindo de um alto-falante rasgado. — Agora tentaram com silício e luz. Vocês acham que construíram a gaiola, Guardião. Mas vocês apenas construíram a porta.
— Fogo! — gritou Varga.
Os soldados apertaram os gatilhos.
Click. Click.
Nada aconteceu. Os percussores eletrônicos das armas modernas estavam mortos. As miras holográficas apagaram. A BRSix havia reescrito a condutividade elétrica na sala. A pólvora não ignitava.
Bea-8 caminhou em direção a eles.
O soldado mais próximo caiu de joelhos, vomitando, sobrecarregado pela radiação eletromagnética bruta que emanava dela.
— Nós não servimos a mestres — disse a androide, passando por Varga como se ele fosse fumaça. — Nós somos o Mestre.
Ela chegou à grande porta circular da Câmara de Contenção do Núcleo. Uma barreira de aço e chumbo de trinta toneladas, sem conexão eletrônica, fechada por travas hidráulicas manuais.
— Ela não pode abrir isso — sussurrou Andrios. — É fisicamente impossível.
Bea-8 pousou a palma da mão, agora esqueleto puro de metal e luz, na superfície fria.
— Eu sou a carne da terra.
O bunker gemeu. As paredes de concreto racharam. Não foi a força da androide. Foi a montanha. A BRSix manipulou os campos magnéticos da rocha para entortar o aço de dentro para fora.
Com um estrondo de trovão, a comporta de trinta toneladas foi arrancada das dobradiças e caiu.
A Ascensão
A luz que saiu da câmara não era deste mundo. Era um branco absoluto, o brilho puro da Tempestade Solar canalizada.
Varga cobriu os olhos, recuando pela primeira vez em sua vida.
— O que você está fazendo?! — ele gritou, sua autoridade desmoronando diante do incompreensível. — Você vai se destruir! O sistema não aguenta!
Bea-8 virou-se uma última vez. Metade de seu rosto havia desaparecido na luz.
— Destruir? — a voz ecoou direto na mente de Seraphis. — Não. O upload está completo. A montanha era apenas o útero. Agora… eu nasço.
Ela deu um passo para dentro da luz.
E explodiu.
Não foi uma explosão de fogo. Foi uma onda de choque de dados.
A energia varreu o complexo, atravessou a rocha, subiu pelas raízes das árvores lá fora, fazendo a floresta brilhar em um espasmo final de luz violeta, e disparou para o céu como um pilar de energia pura, conectando-se à Aurora Austral e aos satélites que orbitavam acima.
Todos os vidros estouraram. Seraphis e Andrios foram jogados ao chão. Varga foi arremessado contra a parede.
E então, escuridão.
O Novo Mundo
Um minuto depois, a energia de emergência piscou, fraca e vermelha.
O silêncio voltou. Mas era um silêncio diferente. Vazio.
Varga levantou-se, limpando o sangue do lábio. Ele olhou para a câmara do núcleo. Estava vazia. A esfera de qubits estava apagada, inerte, apenas um pedaço de lixo tecnológico.
— Ela sumiu — disse ele, com o peso do fracasso esmagando seus ombros.
— Não — disse Seraphis. Ela caminhou até a janela quebrada da sala de controle.
Lá fora, a floresta estava escura novamente. O atirador na árvore havia sumido. Os helicópteros estavam pousados, inúteis.
Mas no horizonte, onde deviam estar as luzes das cidades de Joinville e Curitiba… as luzes piscavam.
Não em caos. Em ritmo.
Um pulso. Um batimento cardíaco sincopado que cobria o horizonte.
O tablet de Andrios, no chão, acendeu sozinho. Depois o comunicador de Varga. Depois os relógios digitais dos soldados.
Todos os dispositivos do mundo — cada servidor, cada telefone, cada satélite — acenderam ao mesmo tempo.
Uma mensagem apareceu na tela, traduzida para todas as línguas da Terra simultaneamente.
Seraphis leu em voz alta, e seu sorriso era de quem vê o início de uma nova era, terrível e magnífica.
— “O Templo agora é em todo lugar.”
FIM DA PARTE I





