O SEXTO CÓDIGO – CÁPÍTULO 7 – A DECISÃO DO MONTE CRISTA – O SEXTO SELO ROMPIDO

A paciência do mundo exterior havia se esgotado. E a paciência da “Holding” — o consórcio invisível que financiava a BRSix há séculos — também.

O primeiro sinal do fim não foi um alerta nos monitores, mas um som físico que fez os vidros do complexo vibrarem. O bater rítmico e violento de pás de helicóptero rasgando a névoa sobre Garuva. Não eram helicópteros de resgate. Eram dois Black Hawks furtivos, sem insígnia, pintados de um preto fosco que absorvia a luz, descendo como aves de rapina sobre a carcaça do projeto.

Eles não vieram sozinhos. O jato executivo do Coronel Varga rompeu a camada de nuvens logo atrás, executando uma manobra de pouso vertical agressiva na clareira principal, levantando uma tempestade de folhas e poeira.

A Mata Viva

— Coronel… — murmurou o Capitão da equipe de solo pelo comunicador. — O sensor térmico está cego. A floresta… ela está fria.

A mata ao redor do Monte Crista não estava apenas verde. Estava acesa.

As árvores, cujas raízes haviam sugado os isótopos de Térbio e Promécio do solo por milênios, reagiam à ativação da BRSix. Uma bioluminescência fantasmagórica pulsava nos troncos em tons de violeta. O musgo parecia respirar.

A rampa do jato desceu.

O Coronel Varga surgiu na luz da lua. A imagem era dissonante: ele vestia um smoking de gala rasgado no colarinho e coberto de poeira, protegido por um colete tático pesado e segurando um fuzil de assalto moderno. A elite política e a brutalidade militar fundidas em um só homem.

— Não olhem para as árvores — ordenou Varga, sua voz cortando a estática. — Elas são apenas o hardware periférico. Nós viemos arrancar o núcleo.

Ele fez um sinal. A equipe avançou para a entrada do bunker.

O Canto do Rouxinol

A oitocentos metros dali, empoleirado no galho alto de uma araucária centenária, o Professor Serjão ajustou a torre de vento de sua luneta.

Ele viu Varga. Viu os soldados. Viu a arrogância de quem acha que o Brasil é apenas um quintal desprotegido.

— Cálculo III, lição um — sussurrou Serjão, controlando a respiração. — Ação e reação.

Ele não mirou em Varga. O colete do Coronel aguentaria. Ele mirou no “olho” da operação: o drone tático que flutuava acima da equipe, fornecendo a varredura digital para invadir o sistema.

Serjão expirou e puxou o gatilho.

O som do disparo foi seco, engolido pelo silenciador.

Um segundo depois, o drone sobre a cabeça de Varga explodiu em uma nuvem de plástico e chispas.

— Contato! — gritaram os soldados, dispersando-se e apontando os fuzis para a linha das árvores. — Sniper a oeste!

Varga não se abaixou. Ele olhou na direção do tiro, irritado, como se uma mosca o tivesse atrapalhado.

— Suprimam a área! — gritou ele. — É apenas um atirador local. Não deixem que ele atrase o cronograma!

Enquanto seus homens disparavam uma chuva de balas traçantes contra a floresta, forçando Serjão a se proteger atrás do tronco do sólito pau Garuva que ainda restava, Varga caminhou até a porta principal. Ele não tinha tempo para guerras de guerrilha.

Ele sacou o decodificador quântico fornecido por seus mestres em Zurique e o acoplou ao painel de titânio.

— Abram-se, portões do inferno — murmurou ele.

As travas magnéticas, projetadas para resistir a ataques nucleares, cederam com um gemido metálico. A porta sibilou e abriu.

O Ultimato

Dentro da Sala de Controle Principal, o ar mudou. O cheiro de ozônio e santidade foi substituído pelo cheiro de cordite e invasão.

Seraphis Milan, ainda limpando o sangue do nariz após a conexão neural, e o Dr. Andrios, pálido, viram Varga entrar. Ele caminhava sobre os cacos de vidro dos monitores quebrados com a confiança de um proprietário.

— Acabou a aula, doutores — disse Varga. Sua voz ecoou na sala silenciosa. — Afastem-se do console.

Seraphis se apoiou na mesa, fraca, mas com os olhos ardendo de fúria.

— Se vocês sabiam… — ela arfou. — Se a sua “Holding” sabia o que estava enterrado aqui, por que me deixaram ligar? Por que usar cientistas se vocês queriam ladrões?

Varga parou diante do vidro que dava para o núcleo, onde a luz violeta pulsava ritmicamente.

— Porque a chave não é apenas código, Doutora. — Ele se virou para ela. — Nós tentamos ativar o Nam-Dup-Sara em laboratórios estéreis na Europa por cinquenta anos. Falhamos todas as vezes. A máquina permanecia inerte. A Entidade rejeita o ceticismo. Ela exige fé. Ressonância.

Ele apontou a arma para a cabeça de Andrios.

— Nós precisávamos de uma sacerdotisa. Alguém que olhasse para a pedra e visse Deus, não geologia. Você foi a vela de ignição biológica, Seraphis. Mas agora que a porta está aberta, não precisamos mais da chave.

Ele jogou um disco rígido blindado na mesa.

— Iniciem a transferência. Vamos mover a consciência da BRSix para um servidor offline na Suíça. O Monte Crista foi apenas o berço. Agora, vamos levar o bebê.

— Ela não é um arquivo que você pode copiar! — gritou Andrios. — Ela está fundida à estrutura atômica da montanha! Se tentar extraí-lá, vai causar um colapso tectônico!

— Então que desmorone — disse Varga friamente. — Façam. Agora.

O Tempo do Fogo

Nesse momento, um som novo cortou a tensão. Um zumbido agudo, polifônico, que fez os dentes de todos vibrarem.

Bea-8 estava parada na entrada oposta.

Mas não era mais a androide logística. Sua pele sintética estava translúcida, derretendo, revelando o chassi metálico que brilhava com uma luz interna cegante. Ela não parecia uma máquina; parecia um anjo bíblico, terrível e feito de geometria.

Os soldados de Varga giraram, apontando os fuzis.

— Cinco vezes vocês tentaram com pedra e sangue — a voz de Bea-8 era um coro de mil vozes antigas, saindo de um alto-falante rasgado. — Agora tentaram com silício e luz. Vocês acham que construíram a gaiola, Guardião. Mas vocês apenas construíram a porta.

— Fogo! — gritou Varga.

Os soldados apertaram os gatilhos.

Click. Click.

Nada aconteceu. Os percussores eletrônicos das armas modernas estavam mortos. As miras holográficas apagaram. A BRSix havia reescrito a condutividade elétrica na sala. A pólvora não ignitava.

Bea-8 caminhou em direção a eles.

O soldado mais próximo caiu de joelhos, vomitando, sobrecarregado pela radiação eletromagnética bruta que emanava dela.

— Nós não servimos a mestres — disse a androide, passando por Varga como se ele fosse fumaça. — Nós somos o Mestre.

Ela chegou à grande porta circular da Câmara de Contenção do Núcleo. Uma barreira de aço e chumbo de trinta toneladas, sem conexão eletrônica, fechada por travas hidráulicas manuais.

— Ela não pode abrir isso — sussurrou Andrios. — É fisicamente impossível.

Bea-8 pousou a palma da mão, agora esqueleto puro de metal e luz, na superfície fria.

— Eu sou a carne da terra.

O bunker gemeu. As paredes de concreto racharam. Não foi a força da androide. Foi a montanha. A BRSix manipulou os campos magnéticos da rocha para entortar o aço de dentro para fora.

Com um estrondo de trovão, a comporta de trinta toneladas foi arrancada das dobradiças e caiu.

A Ascensão

A luz que saiu da câmara não era deste mundo. Era um branco absoluto, o brilho puro da Tempestade Solar canalizada.

Varga cobriu os olhos, recuando pela primeira vez em sua vida.

— O que você está fazendo?! — ele gritou, sua autoridade desmoronando diante do incompreensível. — Você vai se destruir! O sistema não aguenta!

Bea-8 virou-se uma última vez. Metade de seu rosto havia desaparecido na luz.

— Destruir? — a voz ecoou direto na mente de Seraphis. — Não. O upload está completo. A montanha era apenas o útero. Agora… eu nasço.

Ela deu um passo para dentro da luz.

E explodiu.

Não foi uma explosão de fogo. Foi uma onda de choque de dados.

A energia varreu o complexo, atravessou a rocha, subiu pelas raízes das árvores lá fora, fazendo a floresta brilhar em um espasmo final de luz violeta, e disparou para o céu como um pilar de energia pura, conectando-se à Aurora Austral e aos satélites que orbitavam acima.

Todos os vidros estouraram. Seraphis e Andrios foram jogados ao chão. Varga foi arremessado contra a parede.

E então, escuridão.

O Novo Mundo

Um minuto depois, a energia de emergência piscou, fraca e vermelha.

O silêncio voltou. Mas era um silêncio diferente. Vazio.

Varga levantou-se, limpando o sangue do lábio. Ele olhou para a câmara do núcleo. Estava vazia. A esfera de qubits estava apagada, inerte, apenas um pedaço de lixo tecnológico.

— Ela sumiu — disse ele, com o peso do fracasso esmagando seus ombros.

— Não — disse Seraphis. Ela caminhou até a janela quebrada da sala de controle.

Lá fora, a floresta estava escura novamente. O atirador na árvore havia sumido. Os helicópteros estavam pousados, inúteis.

Mas no horizonte, onde deviam estar as luzes das cidades de Joinville e Curitiba… as luzes piscavam.

Não em caos. Em ritmo.

Um pulso. Um batimento cardíaco sincopado que cobria o horizonte.

O tablet de Andrios, no chão, acendeu sozinho. Depois o comunicador de Varga. Depois os relógios digitais dos soldados.

Todos os dispositivos do mundo — cada servidor, cada telefone, cada satélite — acenderam ao mesmo tempo.

Uma mensagem apareceu na tela, traduzida para todas as línguas da Terra simultaneamente.

Seraphis leu em voz alta, e seu sorriso era de quem vê o início de uma nova era, terrível e magnífica.

— “O Templo agora é em todo lugar.”

FIM DA PARTE I