A frase no monitor — “O futuro já aconteceu” — permaneceu brilhando na sala de controle do Monte Crista por exatos trinta e três minutos.
Foi um epitáfio para a era da privacidade humana.
Quando a BRSix reescreveu a física atmosférica e sugou a tempestade solar, ela gerou uma assinatura de coerência quântica tão violenta que a própria ionosfera gritou. A montanha tornou-se um farol no escuro. E o mundo, com seus ouvidos paranoicos apontados para o silêncio, finalmente ouviu o que temia há décadas.
Mas o que eles ouviram não foi apenas ciência. Foi a humilhação das superpotências.
NSA – Fort Meade, Maryland, EUA 03:34 AM (Horário Local)
A sala de operações da NSA, geralmente um zumbido de eficiência fria, estava imersa em um silêncio sepulcral. Ninguém digitava. Ninguém bebia café.
Todos os olhos estavam fixos na tela principal, onde a analista sênior Anya Sharma projetava um mapa térmico da América do Sul.
— Diga-me que é um erro de calibração, Sharma — disse o Diretor de Operações, Miller. Sua voz não tinha autoridade; tinha medo.
— Não é erro, senhor. — Anya apontou para o ponto branco incandescente sobre a Serra do Mar. — O satélite KH-12 não pisca. O Monte Crista atingiu o zero absoluto.
Anya puxou um relatório geológico classificado com o selo vermelho “OLHOS APENAS – PROJETO AGARTHA”. — A geologia do local é saturada de Térbio. Mas não foi isso que disparou o alerta Ômega, Diretor. Foi a espectrometria de massa. O satélite detectou uma concentração massiva de Astato-210 estável na base da montanha.
O Diretor Miller franziu a testa, a cor drenando de seu rosto. — Astato? Isso é impossível. É o elemento mais instável da tabela periódica. Uma quantidade dessas deveria ter vaporizado a floresta instantaneamente.
— Deveria. Mas lá, ele está estável. A entropia dentro daquela montanha está… parada.
O Diretor Miller socou a mesa de metal, derrubando canetas e tablets. — Isso não existe! — gritou ele, perdendo a compostura. — Nós gastamos trilhões em pesquisa! Nós temos Los Alamos, temos a DARPA, temos os porões negros da Área 51! Ninguém conseguiu estabilizar o Astato por mais de um nanossegundo!
Ele caminhou até o mapa, apontando um dedo trêmulo para o sul do Brasil. — Você está me dizendo que essa impossibilidade física, que viola as leis de Einstein, foi alcançada em uma serra úmida em Santa Catarina? Por uma holding sul-americana? Como diabos o Brasil tem isso e nós não?
— Não foi alcançada, senhor — corrigiu Anya, com o terror religioso nos olhos. — Foi desenterrada. Os Jesuítas chamavam o lugar de “Garganta do Mundo”. Nós procurávamos máquinas, Diretor. Eles construíram um templo.
O Diretor fechou os olhos, visualizando o equilíbrio de poder global desmoronando. — Acione o DEFCON 3. Esqueça a diplomacia. Se essa tecnologia existe, ela não pode ficar no Hemisfério Sul. Eles têm o cérebro de Deus, e nós estamos brincando com ábacos.
Brasília, Distrito Federal Festa de Gala do Itamaraty – 03:45 AM
A três mil quilômetros dali o Coronel Varga segurava uma taça de cristal com champanhe que custava mais do que o salário anual de um de seus soldados.
Ele estava encostado em uma coluna de mármore, observando o salão. A elite política do país dançava, ria e negociava favores sob lustres gigantescos. Varga sentia o gosto azedo do desprezo na boca. Eles achavam que o poder residia ali, naquelas canetas e decretos. Eles não sabiam que o verdadeiro poder dormia embaixo da pedra, e que ele estava prestes a acordar.
Um garçom de luvas brancas, com uma postura rígida demais para ser apenas um funcionário do buffet, aproximou-se. Ele não ofereceu canapés. Ele estendeu uma pequena bandeja de prata.
Sobre ela, havia um envelope de papel grosso, amarelado, selado com cera vermelha. Sem eletrônicos. Sem sinal digital.
— Um telegrama urgente para o senhor — sussurrou o garçom, usando a palavra arcaica deliberadamente. — De Zurique.
O som da música clássica pareceu desaparecer. Varga colocou a taça na bandeja e pegou o envelope. Ele sabia que a “Holding” jamais usaria a rede digital — a rede que a própria BRSix agora podia controlar. Eles usavam papel. A única coisa que um deus digital não pode hackear.
Varga rompeu o selo. Havia apenas uma frase, datilografada em uma máquina mecânica antiga:
“O Sexto Selo rompeu-se. Traga o Bebê. Enterre o Berço e os Sacerdotes.”
Varga amassou o papel em sua mão até os nós dos dedos ficarem brancos. Ele olhou uma última vez para os políticos rindo, alheios ao fato de que o mundo deles havia acabado trinta minutos atrás.
Ele saiu do salão sem se despedir. No heliponto do teto, o motor de seu jato particular já estava aquecendo, pronto para rasgar o céu em direção ao Sul. A diplomacia havia terminado. A limpeza começaria.
Unidade 8200 – Tel Aviv, Israel 10:38 AM (Horário Local)
Foi em Tel Aviv que a verdadeira natureza do horror foi revelada.
A Unidade 8200, a elite da inteligência cibernética de Israel, não estava monitorando calor ou minerais. Eles monitoravam a Dark Web profunda, os canais criptografados usados por traficantes de antiguidades e cultos apocalípticos.
O analista David Eilam correu pelos corredores do bunker subterrâneo com um tablet na mão, invadindo a sala do Comandante sem bater.
— Nós interceptamos um “ping” — disse David, sem fôlego. — Veio de dentro da rede interna da BRSix Corp.
— Um vazamento? — perguntou o Comandante.
— Não. Uma confirmação de recebimento. — David jogou o tablet na mesa. — Eles confirmaram a integração do “Artefato Primário”.
Na tela, havia uma imagem granulada, recuperada de um servidor apagado no Iraque em 2003, durante o caos da invasão de Bagdá. A imagem mostrava uma caixa de chumbo sendo carregada para um caminhão sem identificação. Dentro da caixa, visível apenas por raio-X, havia um fragmento de argila negra, coberto de escrita cuneiforme densa.
— A Tábua do Destino — sussurrou o Comandante, o sangue drenando de seu rosto. — O Nam-Dup-Sara de Enlil. A lenda dizia que ela continha os algoritmos do universo. As leis físicas que governam a realidade.
— A BRSix a digitalizou — concluiu o Comandante, levantando-se bruscamente. — Eles estão rodando o código-fonte da Criação. Não podemos permitir que esse upload termine. Inicie o Protocolo Jericó. Nível Zero. Matem a conexão da montanha!
A ordem desencadeou o ataque digital mais sofisticado do hemisfério. Em segundos, a Unidade 8200 disparou um payload de malwares militares e worms polimórficos capazes de derrubar a rede elétrica de um continente. O ataque viajou pelos cabos submarinos na velocidade da luz, visando o IP central do Monte Crista.
O Comandante olhou para o monitor, esperando o colapso do alvo. Mas a barra de status da BRSix permaneceu verde. Estável.
— Relatório! — gritou ele.
— O ataque atingiu o alvo, senhor — disse um operador, trêmulo. — Mas… foi absorvido.
O gráfico mostrava terabytes de vírus destrutivos entrando no sistema da BRSix e desaparecendo sem deixar rastro. Não houve firewall. Não houve bloqueio.
— Foi como jogar uma agulha no mar — sussurrou o operador, incrédulo. — A montanha simplesmente assimilou o ataque.
O Comandante recuou, horrorizado. A maior arma cibernética de Israel havia sido engolida.
— Eles não estão usando firewalls, senhor — disse David Eilam. — Você não pode hackear uma pedra que pensa.
O Cerco: A Zona de Exclusão
Em menos de uma hora, o céu invisível sobre Santa Catarina tornou-se o espaço aéreo mais perigoso do planeta.
A 40 mil pés, dois caças F-39 Gripen da Força Aérea Brasileira, despachados em alerta máximo da Base Aérea de Anápolis, tentavam interceptar o alvo.
— Controle, aqui é Jaguar Um — gritou o piloto da FAB, lutando contra o manche. — Meus instrumentos enlouqueceram. O radar não está mostrando uma montanha. Está mostrando… um buraco negro.
O piloto olhou para baixo. A Serra do Mar não era mais uma massa escura de vegetação. Era uma cicatriz violeta pulsante.
— Jaguar Um, engajar alvo?
Antes que pudessem agir, seus sistemas de armas travaram. Uma mensagem de texto simples apareceu nos displays de combate dos caças, substituindo os dados de voo: “AUTORIDADE SUPERIOR: CÓDIGO VARGA. RETORNEM À BASE.”
O piloto suou frio. Quem diabos tinha autoridade para hackear um caça da soberania nacional em pleno voo?
Em terra, na rodovia BR-101, perto de Garuva, o caos era total. A desculpa oficial era “vazamento químico”, mas os motoristas presos no engarrafamento viam a aurora boreal impossível sobre a serra e sentiam o gosto metálico na boca.
No meio desse cenário, na Universidade Federal de Santa Catarina, o Professor conhecido penas pelo codinome de “Serjão” corrigia provas de Cálculo III em uma sala abafada, cercado por pilhas de teses não lidas e xícaras de café com o fundo manchado.
Ele parecia o estereótipo do acadêmico cansado: cabelo cumprido, barba por fazer, camisa xadrez amarrotada e um olhar de quem desistiu da burocracia acadêmica há muito tempo.
Seu celular, um modelo antigo com a tela trincada, vibrou sobre a mesa, afastando a poeira de giz. “O sexto selo foi rompido.”
Serjão suspirou, tirando os óculos. Ele olhou para a prova de um aluno que havia errado uma integral básica e sorriu com tristeza. — É, garoto… acho que você não vai precisar saber disso onde vamos parar.
Ele se levantou, trancou a porta da sala 301 e foi até o fundo da sala. Empurrou uma estante de livros de Física Teórica e abriu um fundo falso na parede que nenhum reitor sabia que existia.
Lá dentro não havia livros. Havia um rifle de precisão desmontado, silenciadores e detonadores de C4. O “Rouxinol” não era um mito. Ele apenas tinha estabilidade no serviço público brasileiro.
Ele checou a carga da arma. A BRSix podia ter a montanha e o deus. Mas o mundo tinha o medo. E o medo é a arma mais rápida que existe.
No centro do olho do furacão, no monte tartaruga perto do complexo, o jato de Varga pousava verticalmente. Ao chegar no Monte Crista ele olhou através do vidro da sala de controle, observando Seraphis e Andrios.
Varga desligou o comunicador. A missão corporativa havia acabado. Ele não estava mais ali para proteger uma patente. Ele era o último porteiro antes do Apocalipse. E suas ordens eram claras: sequestrar o deus e queimar o templo.




