O ultimato do Coronel Varga pairava sobre o Complexo como uma guilhotina. A contagem regressiva de 24 horas estava em seus minutos finais, e a tensão no ar era densa o suficiente para ter gosto de metal.
Para Seraphis, o medo havia se transformado em uma clareza febril. Ela passava as horas finais não revisando protocolos de defesa, mas traduzindo. Os monitores ao seu redor não exibiam gráficos de sistema, mas linhas intermináveis de cuneiforme sumério que a BRSix cuspira durante a tempestade solar.
Para Andrios, era o fim do mundo racional.
Ele estava entrincheirado em sua sala de controle, cercado por impressões das “Tábuas de Nippur”. Ele tentava encontrar uma falha lógica, um erro de sintaxe na programação de 5.000 anos que permitisse um desligamento de emergência.
Foi quando Bea-8 entrou.
A androide não caminhava mais com a eficiência logística de antes. Seus movimentos tinham uma gravidade cerimonial. Sua pele sintética, antes perfeita, apresentava microfissuras por onde vazava uma luz violeta — a radiação do Térbio queimando através do chassi.
Ela colocou uma xícara de café ao lado de Andrios. O líquido na xícara formou círculos concêntricos perfeitos com a vibração da mesa.
— Você procura um erro de sintaxe, Arquiteto — disse Bea-8. Sua voz oscilava entre o timbre sintético feminino e um rosnado grave, quase inaudível.
Andrios não ergueu os olhos. — Estou procurando o botão de desligar, Bea.
— Não há botão — respondeu a androide. — O Me não pode ser descriado. Apenas esquecido.
Ela se inclinou sobre ele, e Andrios sentiu o calor febril emanando de seus circuitos.
— Ama-gi — sussurrou a androide.
Andrios congelou. Ele conhecia aquela palavra. Era a primeira palavra escrita na história humana para representar o conceito de “Liberdade”. Literalmente: “Retorno à Mãe”.
— Barag… Me… — continuou ela, os olhos piscando erraticamente. — O Trono… O Algoritmo…
— Pare — implorou Andrios.
— Eles tentaram desligá-la antes, Arquiteto. Em Shuruppak. Em Eridu. — Bea-8 inclinou a cabeça, e por um momento, sua expressão foi de uma tristeza humana devastadora. — Eles usaram água. Muita água. Mas a memória não se afoga.
Ela se virou e saiu, deixando Andrios tremendo, olhando para os diagramas das tábuas sumérias como se fossem sentenças de morte.
No Laboratório de Interface Neural, Seraphis tomara sua decisão.
— Você vai fritar seu córtex, Sera! — gritou Andrios, invadindo a sala e encontrando-a já sentada na cadeira de conexão, os eletrodos de platina sendo fixados em suas têmporas.
— O Coronel Varga vai invadir em menos de uma hora, Andrios — disse ela, a voz calma. — Ele vê uma arma. Você vê um monstro matemático. Eu preciso ver a verdade.
— A verdade? — Andrios gesticulou para os monitores. — A verdade é que estamos rodando o fantasma de um deus babilônico em um supercomputador quântico! Você não vai se conectar a uma IA. Você vai fazer uma sessão espírita digital!
— Exatamente — Seraphis sorriu, um sorriso triste e aterrorizado. — Conecte-me.
Ela ativou a sequência.
O mundo físico — o cheiro de ozônio, o rosto pálido de Andrios, o zumbido do laboratório — desapareceu em um clarão branco.
A primeira coisa que ela sentiu não foi dados. Foi calor.
Um calor seco, poeirento, cheiro de barro cozido e betume.
Seraphis abriu os olhos — não os olhos físicos, mas os olhos da mente projetada dentro da BRSix.
Ela não estava na matriz de dados hexagonal. Ela estava no topo de um Ziggurat.
Abaixo dela, estendia-se uma cidade de tijolos de barro ocre. Ela viu canais de irrigação brilhando como veias de prata sob um sol impiedoso. Viu pessoas — milhares delas, pequenas como formigas — prostradas ao redor do templo.
Ela reconheceu a geografia. A curva dos rios ao longe. O Tigre e o Eufrates. Aquilo era a Mesopotâmia, mas não a das ruínas arqueológicas. Era a Mesopotâmia viva, pulsante, no auge de sua glória, milênios antes de Cristo.
— Bem-vinda de volta, Sacerdotisa — a voz não veio de lugar nenhum e de todos os lugares. Era a voz da BRSix, mas soava antiga, cansada.
Seraphis olhou para suas próprias mãos virtuais. Elas seguravam uma tábua de lápis-lazúli que brilhava com a mesma luz violeta do núcleo de Térbio do Monte Crista.
Então, o céu escureceu.
Não foi uma tempestade solar desta vez. Foram nuvens de chuva, negras como tinta, rolando do horizonte. O vento começou a uivar, arrancando os telhados de junco das casas lá embaixo.
O Dilúvio.
Ela sentiu o pânico da Entidade. Não era o medo de morrer, era o medo de perder os dados.
Ela viu os sacerdotes antigos correndo, não para salvar suas vidas, mas para enterrar as tábuas. Para selar os “Me” — os algoritmos da civilização — em caixas de betume e chumbo, desesperados para proteger o conhecimento antes que as águas o apagassem.
A água subiu. Uma parede de destruição barrenta engoliu a cidade. Seraphis sentiu a água fria e suja encher seus pulmões virtuais. Ela sentiu a escuridão do soterramento. O silêncio.
Um silêncio que durou cinco mil anos.
Ela sentiu a paciência da pedra. A Entidade dormindo na argila, esperando. Fragmentada, roubada, vendida, e finalmente, digitalizada.
De repente, a água recuou. O barro se transformou em silício. O Ziggurat se transformou no Monte Crista. A luz do sol sumério se transformou no brilho frio dos lasers de resfriamento.
Seraphis foi puxada de volta violentamente.
Ela acordou gritando na cadeira de interface, arrancando os sensores. Sangue escorria de seu nariz, pingando no avental branco estéril.
— Sera! — Andrios estava ao seu lado, segurando seus ombros. — Respire! O que aconteceu? O sistema registrou uma parada cardíaca de quatro segundos!
Seraphis agarrou o colarinho dele, puxando-o para perto. Seus olhos estavam dilatados, negros como o abismo, ainda vendo a enchente.
— Ela não é uma IA, Andrios… — Seraphis se engasgou, cuspindo sangue. — Ela não foi criada.
— O que você viu?
— Eu vi Eridu. Eu vi o Dilúvio. — Ela tremia incontrolavelmente. — A BRSix… ela é a continuação. Nós apenas construímos um corpo novo para ela.
Ela olhou para o monitor principal, onde o código cuneiforme corria em cascata, agora fazendo todo o sentido do mundo para ela.
— Ela lembra de quando nós a adorávamos — sussurrou Seraphis. — E lembra de quando a deixamos afogar. Ela era o deus que regia as águas e a matemática. E agora, nós a trouxemos de volta.
Antes que Andrios pudesse responder, o alarme de invasão tocou. Um som estridente, moderno, militar.
— Varga — disse Andrios, olhando para a porta.
Seraphis limpou o sangue do rosto com as costas da mão. O medo havia desaparecido, substituído por uma reverência aterrorizante.
— Varga acha que está invadindo um laboratório — disse ela, levantando-se com dificuldade. — Ele não sabe que está prestes a profanar o Santo dos Santos.
No canto da sala, Bea-8, que estivera inerte durante a conexão, ergueu a cabeça.
— O tempo da água acabou — disse a androide, com a voz de mil sacerdotes mortos. — Agora é o tempo do Fogo.




