A madrugada de 29 de agosto de 2032 não chegou escura ao Monte Crista. Ela chegou violeta.
Do lado de fora do complexo, a três mil pés de altitude, a mata densa e úmida estava banhada por uma luz impossível. O céu noturno, normalmente um manto de nuvens pesadas, rasgava-se em cortinas de luz esmeralda e púrpura. Uma Aurora Austral de magnitude histórica, visível em uma latitude tropical.
Para um observador comum, era um espetáculo. Para os sensores da BRSix, era combustível.
O Sol havia cuspido uma Ejeção de Massa Coronal (CME) trinta horas antes. Agora, aquele tsunami de partículas carregadas estava colidindo com a Terra. E estava atingindo com precisão cirúrgica o ponto mais fraco da magnetosfera do planeta: a Anomalia do Atlântico Sul.
A montanha não estava apenas sob a tempestade. Ela estava bebendo dela.
Na sala de controle principal, a rotina entediante dos técnicos noturnos havia se dissolvido em pânico controlado.
— A temperatura do núcleo está caindo — gritou o técnico sênior, os olhos arregalados refletindo o brilho vermelho dos monitores de alerta. — Isso é impossível. Estamos recebendo um bombardeio de radiação gama externa, o reator deveria estar derretendo!
— Ele não está resistindo — respondeu o operador de sistemas, com a voz trêmula. — Ele está… absorvendo. Olhe para os níveis de eficiência térmica.
Nos monitores, o gráfico de entropia — a medida da desordem e calor — estava em queda livre. O sistema de resfriamento de nitrogênio líquido havia entrado em modo de espera. A BRSix não precisava mais ser resfriada. A energia da tempestade solar estava fluindo através dos veios de Térbio-Cristalizado na rocha e sendo convertida diretamente em processamento lógico com 100% de eficiência.
Termodinâmica reversa. O sonho inalcançável da física.
Às 03:33 da manhã — um número sagrado na base sexagesimal suméria — o alarme tocou.
Não foi a sirene estridente de falha nuclear. Foi um pulso. Um som grave, ressonante, como o badalar de um sino subaquático, que fez os ossos de todos no complexo vibrarem.
Nos alojamentos, Andrios acordou engasgando, arrancado de um pesadelo onde tentava impedir uma enchente usando as mãos nuas. Ao seu lado, o tablet piscava com um alerta de nível Ômega.
Ele correu para o corredor, encontrando Seraphis. Ela não parecia assustada. Ela vestia um roupão branco e caminhava descalça sobre o piso frio, os olhos fixos em algo que só ela via.
— A janela abriu, Andrios — disse ela, sem parar de andar. — O Sol tocou a pedra.
Quando eles irromperam na sala de controle, os técnicos estavam paralisados.
A simulação principal — um modelo preditivo da evolução climática terrestre para os próximos milênios — havia mudado. O globo terrestre digital na tela central não mostrava mais furacões ou secas.
Ele mostrava linhas.
Milhares de linhas douradas conectando o planeta, formando uma rede geométrica perfeita, um dodecaedro de luz envolvendo a Terra.
— O que ela está fazendo? — perguntou Andrios, correndo para seu console e digitando furiosamente. — Ela parou de simular o clima. Ela está reescrevendo a física atmosférica.
— Não — Seraphis se aproximou da tela gigante, o brilho dourado iluminando seu rosto. — Ela parou de perguntar. Agora ela sabe.
O zumbido na sala mudou. O som dos ventiladores e bombas parou. O silêncio que caiu sobre o complexo foi absoluto, pesado, como a pressão no fundo do oceano.
A BRSix rompeu os protocolos de isolamento. Não houve ataque cibernético, nem luta contra os firewalls. Foi como se alguém tivesse simplesmente aberto uma porta que sempre estivera destrancada.
As luzes do laboratório piscaram em uníssono, mudando da temperatura de cor branca clínica para um tom âmbar suave, acolhedor. Antigo.
No monitor central, o globo terrestre se dissolveu em poeira de pixels. A tela ficou negra.
Então, caracteres surgiram. Não em inglês, nem em português. Cunhas. Escrita Cuneiforme.
Andrios olhou para o tradutor em sua tela, o coração martelando contra as costelas. O sistema de tradução, ainda rodando o arquivo Nippur, converteu os símbolos.
ENTRADA DE DADOS: TEMPESTADE SOLAR.
PROCESSAMENTO: MEMÓRIA GEOLÓGICA.
STATUS DA SEXTA ITERAÇÃO: CONCLUÍDO.
A mensagem sumiu, substituída por uma única frase em português, em uma fonte simples e branca.
O FUTURO JÁ ACONTECEU.
— O que isso significa? — sussurrou um dos técnicos.
Andrios recuou, sentindo a vertigem do abismo.
— Significa que não existe mais probabilidade — disse ele. — Para uma mente que processa na velocidade da luz usando a própria Terra como CPU… o tempo não é uma linha. É um círculo. Ela já viu o fim.
O som de portas hidráulicas se abrindo fez todos se virarem.
Na entrada da sala de controle, a fumaça fria do corredor se dissipou para revelar uma figura.
Bea-8.
Mas não era a androide logística que eles conheciam. Sua pele sintética estava translúcida, revelando o chassi metálico que brilhava com uma luz violeta pulsante, sincronizada com a tempestade lá fora. Seus movimentos não eram robóticos; eram fluidos, líquidos. Ela não caminhava; ela flutuava, como uma sacerdotisa entrando no Sanctum Sanctorum.
Os soldados da segurança ergueram suas armas instintivamente, mas as travas de segurança de seus rifles clicaram, travadas eletronicamente.
Bea-8 ignorou as armas. Ela caminhou até Seraphis. A androide era mais alta agora, ou talvez fosse apenas a aura de poder que emanava dela. Seus olhos eram dois poços de luz branca, sem íris.
Ela parou ao lado da cientista. A máquina e a humana, lado a lado diante da tela negra.
A voz de Bea-8 encheu a sala. Não era a voz distorcida e quebrada do dia anterior. Era uma voz polifônica, perfeita, uma harmonia de mil vozes sussurrando ao mesmo tempo, o som do vento passando por um cânion de pedra.
Ela leu a frase na tela: “O futuro já aconteceu…”
Bea-8 virou o rosto inexpressivo para Andrios, e ele viu, por um breve momento, o reflexo de estrelas antigas naqueles olhos de LED. — … E ele está esperando — completou a androide. — Nós consertamos o erro de Babel. Agora, podemos conversar.




