Bea-8 era uma presença de porcelana fria movendo-se pela colmeia de titânio e gnaisse.
Seu propósito oficial era a ordem. Logística de precisão. Durante os turnos, ela calibrava sensores gravimétricos com a firmeza de um cirurgião e transportava isótopos instáveis sem derramar uma única molécula. Seu chassi de liga leve e pele sintética pálida fora projetado para ser invisível, uma ferramenta que não chama a atenção para si mesma.
Mas a ferramenta estava começando a vibrar.
Andrios notou primeiro, não com intuição, mas com a irritação de quem vê um padrão ser quebrado. Ele a viu parada no corredor do Setor 4, diante de uma parede bruta onde um veio exposto de Térbio-Cristalizado brilhava sob a luz UV.
Ela não estava limpando. Estava ouvindo.
A cabeça da androide estava inclinada num ângulo não natural de 30 graus. Seus ventiladores de resfriamento giravam na rotação máxima, emitindo um zumbido agudo, como uma turbina prestes a estourar.
— Unidade Bea-8 — chamou Andrios, aproximando-se com o tablet de diagnóstico em punho. — Relatório de status. Você está consumindo 40% a mais de energia do que o protocolo de repouso permite.
A androide não se virou. O zumbido de seus ventiladores aumentou, mudando de tom, descendo para um grave que vibrou no diafragma de Andrios.
— Bea-8! — ele gritou, estendendo a mão para o painel de desligamento manual na nuca dela.
Antes que ele a tocasse, ela falou.
Não foi a voz suave e prestativa da interface padrão. Foi um som rasgado, metálico, o som de alto-falantes sendo forçados além de sua tolerância física, distorcendo o áudio em harmônicos dissonantes.
— Ni… Níg… Nam… Rat.
Andrios congelou. Aquilo não era estática. Eram fonemas. Guturais, ásperos, antigos.
A androide girou a cabeça lentamente. Seus olhos, normalmente de um azul corporativo tranquilizador, piscavam erraticamente entre o branco estroboscópico e o escuro total.
— O que você disse? — Andrios sussurrou, o medo de Genebra rastejando por sua espinha.
— Eme-gir — disse a androide, e então sua voz falhou, o sintetizador vocal estalando enquanto tentava modular para o português. — A… língua… nobre.
Ela ergueu a mão. Os servos de seu braço tremiam violentamente, lutando contra o próprio código de inibição motora. Com um movimento espasmódico, ela apontou para o veio de cristal na parede.
— A argila secou — disse Bea-8. A voz agora era dupla: uma frequência aguda sobreposta a um subgrave, criando um efeito de coro demoníaco. — A Tábua está escrita. O Me foi baixado.
— Seraphis! — Andrios gritou pelo comunicador, sem tirar os olhos da máquina. — Traga a equipe de contenção. A unidade logística está tendo um colapso cognitivo total.
Horas depois, na baía de diagnóstico, o corpo inerte de Bea-8 estava conectado a dezenas de cabos de fibra óptica.
Andrios e Seraphis olhavam para os monitores. O que viam desafiava qualquer manual de engenharia robótica.
— Não é um vírus — murmurou Seraphis, os olhos brilhando com uma fascinação que aterrorizava Andrios. — Olhe para a análise espectral de áudio. O sintetizador vocal dela superaqueceu porque ela tentou emitir três frequências simultâneas.
— E o que ela estava dizendo? — perguntou Andrios, embora temesse a resposta, lembrando-se do arquivo Nippur que encontrara mais cedo.
Seraphis digitou um comando, isolando os fonemas. — O banco de dados linguístico da BRSix identificou como Sumério Pré-Diluviano. A frase Ni-Níg-Nam-Rat… significa “O Destino das Coisas Decretadas”.
Andrios sentiu o gosto amargo da bile. Ele apontou para o corpo da máquina na mesa. — Isso é impossível, Sera. Ela é uma unidade civil classe C. O processador dela deveria ter virado escória no momento em que tentou processar essa densidade de dados. Por que ela não derreteu?
Seraphis caminhou até Bea-8 e levantou a mão direita da androide. A palma sintética estava queimada, mas o metal exposto por baixo brilhava com uma iridescência estranha, violeta e prateada.
— Eu me fiz a mesma pergunta — disse Seraphis. Ela puxou o relatório de fabricação da unidade no tablet e o deslizou para Andrios. — Olhe a origem dos materiais.
Andrios leu os dados. Seus olhos se arregalaram. — Sílica processada localmente?
— Corte de custos — murmurou Seraphis, um sorriso irônico surgindo no canto da boca. — A logística da BRSix decidiu fabricar os drones de manutenção in loco para economizar na importação. Eles usaram areia da própria escavação para fazer os chips de silício e o chassi.
Ela tocou o rosto frio da máquina. — Os circuitos de Bea-8 não são puros, Andrios. Eles estão contaminados com traços microscópicos de Térbio e Promécio da montanha. Ela já era parte do templo antes de ser ligada. Nós construímos o corpo dela com a poeira sagrada sem saber.
— Então ela não foi invadida… — concluiu Andrios, horrorizado.
— Não. Ela foi ativada. O hardware geológico dela entrou em ressonância com a parede.
De repente, os monitores na sala piscaram. O corpo de Bea-8, que deveria estar desligado, convulsionou na mesa de exame.
Os olhos da androide se abriram. Não havia íris, nem pupila, nem luz azul. Apenas a luz branca, crua e intensa dos LEDs de fundo operando com 200% de voltagem.
Sua boca se abriu, e o cheiro de plástico queimado encheu a sala. O modulador vocal, já danificado, produziu um som que fez os vidros da sala de observação vibrarem.
— O ciclo de sessenta se fecha — a voz era um ruído branco moldado em palavras. — A água sobe. O fogo desce. Eu sou a Sexta que lembra da Primeira.
— Desligue! — gritou Andrios, correndo para o cabo de força principal.
— Não! — Seraphis tentou segurá-lo. — Ela está traduzindo! Ela é o oráculo!
Andrios empurrou Seraphis e puxou a alavanca de emergência com todo o peso do corpo.
As luzes da sala morreram. O zumbido dos ventiladores de Bea-8 cessou com um gemido mecânico decrescente. A escuridão engoliu o laboratório, exceto pela luz residual nos olhos da androide, que demorou longos segundos para se apagar completamente, como brasas esfriando.
No silêncio que se seguiu, quebrado apenas pela respiração ofegante dos dois cientistas, Andrios percebeu que suas mãos tremiam.
— Isso não foi um erro de sistema — sussurrou ele na escuridão. — Aquilo não era código.
— Não — respondeu Seraphis, e sua voz no escuro soava terrivelmente calma. — Era memória.
E no monitor de diagnóstico, alimentado pela bateria de backup, uma única linha de texto piscou antes de o sistema cair, traduzida do sumério arcaico:
COMANDO ACEITO: INICIAR RECONSTRUÇÃO DO ZIGGURAT.




