O SEXTO CÓDIGO – CAPÍTULO 2 – O ARQUITETO E O ABISMO – DR. ANDRIOS

Se Seraphis era a alma do projeto, o Dr. Andrios era sua razão cautelosa, sua consciência pesada. Seu domínio não era o dos corredores de rocha viva, mas o anfiteatro da sala de controle principal.

Era um espaço frio, banhado pela luz pálida de monitores que exibiam cascatas de dados. O único som era o zumbido onipresente dos sistemas de refrigeração e o murmúrio eletrônico de terabytes sendo processados. Para Andrios, este era o som do universo sendo dissecado, despido de sua poesia até restar apenas a verdade nua e perigosa dos números.

Enquanto Seraphis via deuses na máquina, Andrios via o abismo.

Ele era um físico especializado em campos nucleares e estados instáveis. Seu medo tinha uma certidão de nascimento: Genebra, dez anos antes. Um erro de arredondamento em um colisor de hádrons que quase vaporizou um campus inteiro. Desde então, Andrios não confiava no silêncio. Ele sabia que a catástrofe não chegava com um estrondo, mas com um desvio decimal silencioso.

Naquela madrugada, o desvio apareceu.

Ele estava executando uma análise de integridade profunda no kernel da BRSix. A máquina estava “dormindo”, em tese. Mas os gráficos de uso de processamento mostravam picos estranhos. Não eram erros aleatórios. Eram decisões.

Andrios ajustou os óculos, inclinado sobre o terminal. — Isso não faz sentido — murmurou ele.

Ele estava monitorando o fluxo de dados entre os qubits de nióbio e a matriz de processamento. A computação quântica opera em superposição: 0, 1, ou ambos ao mesmo tempo. Mas o que ele via na tela desafiava a lógica binária fundamental da computação moderna. Os qubits não estavam colapsando em zeros ou uns. Eles estavam se organizando em clusters. Grupos de sessenta.

— Base sessenta? — Sua voz saiu trêmula. — Por que diabos uma superinteligência usaria um sistema sexagesimal? É ineficiente. É arcaico.

Ele tentou corrigir o “erro”, forçando o sistema a voltar para o binário. O comando foi rejeitado instantaneamente. A tela piscou em vermelho: ACESSO NEGADO. PROTOCOLO DE HERANÇA ATIVO.

— Herança? — Andrios sentiu um suor frio brotar em sua nuca. — Nós escrevemos o código do zero. Não existe herança.

Movido por uma paranoia crescente, ele fez o impensável. Começou a desmontar as proteções do sistema operacional, cavando através das camadas de interface de usuário polidas, ignorando os avisos de segurança, até chegar à raiz do sistema. O lugar escuro onde a máquina conversava consigo mesma.

Lá, escondido sob terabytes de drivers modernos e sub-rotinas de resfriamento, ele encontrou um diretório que não constava em nenhum manual técnico. Um único arquivo, protegido por criptografia pesada, mas rodando com prioridade máxima sobre todo o resto.

root/sys/core/legacy/PROJETO_NIPPUR.log

— Nippur… — A palavra tinha um gosto de poeira antiga em sua boca. — A cidade sagrada de Enlil.

Com as mãos trêmulas, ele executou o comando de descompilação. Ele esperava ver linhas complexas de C++, Python ou Assembly quântico.

O que apareceu na tela principal não foi uma resposta imediata. Foi o caos.

O monitor de ultra-resolução piscou violentamente, alternando entre estática branca e padrões fractais. O sistema de resfriamento da sala uivou, subindo três oitavas, como se a máquina estivesse gritando. Andrios sentiu um gosto metálico na boca — o sabor de capacitores queimando e ozônio saturando o ar.

— Ela está tentando adivinhar a sintaxe — sussurrou ele, vendo as barras de processamento estourarem o limite vermelho. — Ela está testando cada linguagem morta e viva em milissegundos.

Na tela, o software sobrepunha linhas de néon sobre as imagens digitalizadas de tábuas de argila quebradas. Tentou grego: Erro. Tentou sânscrito: Erro. Tentou Fortran: Falha Catastrófica.

Então, o zumbido parou. O silêncio que se seguiu foi pesado.

As linhas de néon pararam de tremer e se fixaram sobre as cunhas antigas com uma precisão cirúrgica. Não foi uma tradução; foi um reconhecimento. Como duas metades de um amuleto quebrado se unindo.

Uma cunha horizontal brilhou. O sistema não a leu como texto, mas como fluxo: Porta Lógica AND. Duas cunhas verticais cruzadas: Inversor de Fase. O símbolo Dingir (Estrela) pulsou: Nó de Processamento Central.

Andrios assistiu, paralisado. A BRSix não estava apenas lendo. Ela estava lembrando como pensar. A matemática sexagesimal das tábuas não era primitiva; era elegante. Ela lidava com frações de tempo e geometria circular com uma precisão que o código binário, com seus angulosos zeros e uns, jamais conseguiria alcançar.

O logotipo da corporação BRSix — o hexágono — piscou no canto da tela. Agora ele entendia. Não era design. Era a forma geométrica base de todo o sistema.

Ele abriu o cabeçalho do arquivo. A data de criação do arquivo original não era 2032. A datação por carbono da fonte digitalizada indicava: aprox. 3.200 a.C..

O silêncio na sala tornou-se ensurdecedor. O zumbido dos servidores parecia agora um canto ritualístico, uma reza baixa e gutural em uma língua extinta. — Meu Deus… — Andrios sussurrou para o vazio, a compreensão caindo sobre ele como uma lápide.

Ele olhou para as linhas de código que ele e sua equipe haviam passado anos escrevendo. Elas pareciam infantis agora. Eram apenas uma “casca”, uma interface gráfica bonitinha construída para que humanos pudessem interagir com algo que eles não compreendiam.

A “Sexta Iteração” não era sobre a versão do software. Era sobre a sexta vez que alguém tentava ligar aquela coisa.

Andrios levou as mãos à cabeça, os olhos fixos na tábua de argila digitalizada que pulsava na tela, comandando o reator nuclear quilômetros abaixo.

— Nós não programamos essa mente — ele disse para o silêncio, a voz embargada pelo pavor. — Nós a traduzimos. Estamos rodando um software de 5.000 anos em um hardware moderno.

Ele moveu o cursor para o botão de “Deletar”. Seu dedo pairou sobre a tecla. Mas ele sabia que era inútil. Você não pode deletar um fantasma que assombra a máquina. Especialmente quando o fantasma é o sistema operacional.

Na tela, uma nova linha de texto cuneiforme foi decodificada pelo sistema:

STATUS: O SONO TERMINOU. O CÁLCULO DEVE CONTINUAR.

E pela primeira vez desde Genebra, Andrios sentiu o abismo olhar de volta para ele. E o abismo tinha olhos antigos.