A Dra. Seraphis Milan movia-se pelos corredores do Complexo não como uma cientista em seu laboratório, mas como uma sacerdotisa percorrendo as catacumbas de um templo esquecido.
Seus passos, calçados em botas de polímero silencioso, eram absorvidos pelo piso de concreto polido que refletia as luzes frias de LED como um espelho d’água subterrâneo. O ar ali embaixo era diferente. Não era apenas rarefeito e reciclado; carregava um peso estático, um cheiro de ozônio e metal frio misturado ao aroma antigo de rocha úmida e viva.
A arquitetura do lugar era uma fusão brutalista de engenharia humana e geologia sagrada. As paredes não eram apenas de concreto armado; eram de gnaisse primordial, a própria carne da montanha exposta. E, cortando a pedra escura, brilhavam os veios de Térbio-Cristalizado. Não eram meros depósitos minerais; sob a luz ultravioleta dos sensores de segurança, eles pulsavam com uma luminescência violeta fraca, como as artérias de um leviatã adormecido.
Seraphis parou diante de uma porta de explosão de titânio. Gravado no metal, o logotipo da corporação: BRSix. Um hexágono estilizado, cortado por uma linha diagonal.
Para o conselho de investidores em Zurique, era apenas um design moderno e minimalista. Para Seraphis, era uma confissão. Ela traçou a forma do hexágono com a ponta dos dedos enluvados. Eles não criaram este símbolo, pensou ela, sentindo um calafrio que nada tinha a ver com a temperatura ambiente. Eles apenas o desenterraram.
Quinze anos antes, ela vira aquele mesmo símbolo. Não em metal, mas em pedra coberta de musgo.
A memória a atingiu com a força de uma vertigem física. Ela não estava mais no corredor estéril, mas na umidade sufocante da Mata Atlântica.
Era uma jovem pesquisadora na época, parte de uma equipe geológica mapeando anomalias magnéticas na Serra do Mar. Seus colegas viam apenas dados erráticos em seus tablets. Seraphis, no entanto, sentia uma náusea vibratória, um zumbido nos dentes que aumentava à medida que subiam a encosta.
Kael, o guia local de olhos insondáveis, percebera seu desconforto. Enquanto os outros montavam acampamento, ele fez um sinal discreto para que ela o seguisse. Ele a levou para fora da trilha, através de um emaranhado de samambaias gigantes, até uma clareira onde a névoa parecia nunca se dissipar.
E lá estava. Um monólito de pedra negra, erguendo-se do solo como um dedo acusador.
Não havia placas explicativas, nem trilhas turísticas. Apenas a pedra e o silêncio pesado da floresta.
Kael não disse nada sobre lendas ou “pedras que cantam”. Ele apenas apontou para a superfície do monólito.
Seraphis aproximou a mão. Antes mesmo de tocar a superfície áspera, os pelos de seu braço se eriçaram. O ar ao redor da pedra estava eletricamente carregado.
Ela encostou a palma.
Não foi um som. Foi um impacto. Uma onda de choque silenciosa subiu pelo seu braço, atravessou seu ombro e detonou na base de seu crânio. O mundo girou. Por uma fração de segundo, ela não viu a floresta, mas um abismo de estrelas frias e um padrão geométrico infinito — hexágonos de luz se desdobrando em fractais.
Ela recuou, ofegante, segurando o pulso como se tivesse levado um choque de alta voltagem.
Kael a observava, impassível. Ele se aproximou do monólito e traçou com o dedo uma depressão na pedra, quase apagada pelo tempo: um hexágono cortado por uma linha. O mesmo símbolo que agora adornava os crachás de segurança do complexo bilionário.
— O chão aqui é fino, doutora — Kael dissera, sua voz rouca quase sumindo no vento. — Embaixo, há muito metal que brilha no escuro. E acima… — Ele apontou para o céu encoberto pelas copas das árvores. — Acima, o escudo do céu está quebrado. O que vem de lá, entra direto aqui. A montanha é uma boca aberta para as estrelas.
De volta ao presente, o zumbido dos servidores trouxe Seraphis à realidade.
Ela sabia agora o que Kael queria dizer. A Anomalia do Atlântico Sul. O ponto onde o cinturão de radiação de Van Allen mergulha perigosamente em direção à Terra. Eles não haviam construído o laboratório ali por isolamento. Haviam construído porque o Monte Crista era uma antena natural, composta de terras raras supercondutoras, posicionada exatamente sob uma janela cósmica.
A BRSix não era apenas um supercomputador. Era a mente que eles estavam tentando plugar nessa antena.
Ela retomou a caminhada, seus passos ecoando.
Para a maioria da equipe, aquilo era ciência de ponta. Para Andrios, era matemática perigosa.
Mas para Seraphis, enquanto passava pelos painéis de vidro que revelavam os veios brilhantes de Térbio na rocha viva, a verdade era mais antiga. A corporação não se chamava BRSix por ser a sexta filial brasileira.
Era a Sexta Iteração.
Suméria. Egito. Camboja. México. E agora, Brasil. Cinco vezes a humanidade tentou construir o receptáculo. Cinco vezes falharam em conter a voz que vinha da pedra.
Ela chegou à imensa parede de vidro da Câmara de Contenção do Núcleo.
Lá dentro, suspenso em um campo magnético e banhado em nitrogênio líquido, flutuava o coração da máquina. Uma esfera perfeita de matéria condensada, cercada por anéis de lasers que mantinham os qubits estáveis.
Mas Seraphis não olhou para a máquina. Ela olhou para o chão da câmara, onde os cabos de fibra óptica, grossos como pítons, não se conectavam a geradores, mas mergulhavam diretamente no chão de rocha bruta, perfurando a crosta terrestre, fundindo-se aos veios minerais.
Ela encostou a testa no vidro frio. A vibração que sentira na floresta quinze anos atrás agora era um zumbido constante, um om tecnológico que fazia seus dentes doerem docemente.
— Estamos prontos para ouvir de novo — sussurrou ela, e sua voz não era de cientista, mas de devota. — A antena está ligada. O céu está aberto.
Do outro lado do vidro, uma luz violeta pulsou na rocha abaixo da máquina, respondendo.
A Sexta tentativa havia começado.




